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Entrevistamos Amália Fischer, cofundadora do Fundo ELAS, sobre doação e o impacto nos direitos das mulheres no Brasil

26.08.2018 // por Viralize

Quando o assunto é direito da mulher, o cenário brasileiro melhorou, mas ainda há muito a se fazer para que números relacionados à violência de gênero diminuam e os dados sobre mulheres na política e em altos cargos e salários no mercado de trabalho aumentem. A conta ainda não fecha, não contempla quem precisa, e as organizações da sociedade civil com foco nesse tema fazem o que podem dentro dos recursos que conseguem para mobilizar e atuar pelas mulheres.

No âmbito da política, por exemplo, apesar da lei de cotas nos partidos políticos, há falta de mulheres parlamentares. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), em um ranking de 33 países latino-americanos e caribenhos sobre mulheres nos parlamentos nacionais, o Brasil ocupa a 32ª posição devido aos 9,9% de parlamentares eleitas. Está à frente somente de Belize (3,1%) e muito distante da primeira posição ocupada pela Bolívia, onde 53,1% no parlamento são mulheres.

As consequências dessa baixa participação ficam evidentes: enfrentamos ameaças de retrocessos nos direitos já conquistados, um exemplo é PEC 181, que proíbe o aborto em todas as circunstâncias até mesmo quando já autorizado pela legislação e jurisprudência brasileira (nos casos de estupro, anencefalia e risco de vida da gestante). Segundo Amália Fischer, cofundadora e coordenadora geral do Fundo Elas, estamos vivendo um paradoxo  “por um lado há uma massa crítica de mulheres jovens e outras não tão jovens, que nunca se autodenominaram feministas. Hoje, ambas se reivindicam como tais e não estão dispostas a abrir mão de suas ideias”, comentou.

E quem luta pra mudar essa situação? São muitos movimentos e organizações nessa causa e o Fundo Elas entra nesse grupo – há 18 anos fortalece o protagonismo, a liderança e os direitos das mulheres, mobilizando e investindo recursos em suas iniciativas. Por meio de editais públicos, apoiam projetos de grupos de mulheres de todo o Brasil. E foi sobre essa atuação e o cenário brasileiro que conversamos. Vem conferir a entrevista completa:

VIRALIZE – Como vocês enxergam o cenário brasileiro quando o assunto é Direitos Humanos – principalmente com foco nas mulheres? Avançamos?

Amália Fischer – Os direitos das mulheres e meninas são hoje uma causa de interesse público e avançaram desde a redemocratização do Brasil.  Como exemplo disso temos a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, a PEC das trabalhadoras domésticas e todos os direitos que são garantidos pela constituição às brasileiras em condição de igualdade. O que acontece é que com o baixo número de mulheres no congresso, e conservadorismo à flor da pele em parte dos parlamentares, até esses passos ficam ameaçados. Outros atores desse cenário, como a mídia, tem ganhado outro papel, já não é mais tão visceralmente crítica da causa das mulheres, nem está o tempo todo desprestigiando o feminismo. Ao contrário, parecem ter compreendido que o feminismo trouxe elementos, questões, debates, leis sérias e importantes para a equidade entre mulheres e homens. Mas claro que isso não isenta que ainda haja jornalistas machistas. Os direitos das mulheres são hoje uma causa que é de interesse público e deveriam ser também do setor privado: a não inserção das mulheres na vida econômica, política, social, científica das diferentes sociedades impacta os indicadores de desenvolvimento dos países. Segundo o relatório da McKinsey & Company de 2015, 28 trilhões de dólares se perdem quando não se investe na equidade de gênero. Outras instituições como Banco Mundial, ONU e Foro Econômico Mundial têm sustentado durante décadas a importância de investir nos direitos das mulheres e meninas.

VIRALIZE – Como a cultura de doação pode causar impacto esse cenário descrito?

Amália Fischer – A cultura de doação no Brasil ainda é direcionada a caridade, igrejas, crianças, educação e meio ambiente – em uma lógica conservacionista. Se nos referimos à cultura de doações de indivíduos as tendências são essas. Se nos referimos a doadores institucionais, os poucos que fazem doações para terceiros esquecem as condições das pessoas que vivem nos territórios em foco, sem uma análise sistêmica. São poucos os que pensam que é importante doar sob perspectiva cidadã, essa que visa o todo, um impacto real. É com esse olhar que o Fundo ELAS faz fomento e doação para organizações e grupos que se dedicam aos direitos das mulheres e à equidade de gênero. No caso, o Fundo ELAS tem diversos parceiros e diversas fontes de recursos, não é patrocinado e nem depende de um único doador. Quanto mais diversos os doadores e parceiros tem uma organização, maior é sua possibilidade de sustentabilidade. Para essa reflexão, trago outro dado interessante: no Brasil, são as mulheres que mais doam proporcionalmente, dado que ganham até 30% menos que os homens. São as que mais se envolvem em solucionar os problemas da comunidade e as que estão à frente de muitas das lutas por direitos, além dos próprios. Quando uma organização social com esse foco recebe e faz uma doação, atua como um efeito dominó, em uma relação interdependente com as organizações de mulheres e com os parceiros. Doar para o Fundo ELAS e, consequentemente para as mulheres, significa desde salvar a vida das mulheres até investir em formação de massa critica, incidência politica – algo que vai além da política partidária -, elaboração de políticas públicas, controle social, saúde das mulheres, etc.

VIRALIZE – De modo geral, qual a importância de investir em organizações sociais já consolidadas e tão atuantes como vocês?

Amália Fischer – No caso do Fundo ELAS, que além de fazer doações, faz acompanhamento e avaliação dos projetos, significa não inventar a roda, e sim ter ao lado uma organização com 18 anos de experiência no mundo do investimento social e da filantropia para a justiça social. O Fundo ELAS é o único fundo que se dedica exclusivamente aos direitos das mulheres e à equidade de gênero no Brasil. É uma organização que tem reconhecimento nacional e internacional, além de capilaridade nacional e a confiança das organizações e grupos de mulheres apoiados. Além disso, o Fundo ELAS tem mostrado sua capacidade de sustentabilidade, de gestão e de inovação.

VIRALIZE – Como Viralize e outros projetos dessa natureza podem contribuir para continuidade do Fundo ELAS?

Amália Fischer – Fortalecendo e estimulando a cultura de doação dirigida aos direitos das mulheres, divulgando e difundindo as ações do Fundo ELAS e o que fazemos. São iniciativas importantes para trazer mais parceiros para o âmbito da justiça social e ambiental, com uma perspectiva de transformação de uma cultura de doações meramente de caridade para uma cultura de doação cidadã. Um dos desafios do Fundo ELAS é conseguir atender a demanda das organizações da sociedade civil e dos coletivos que trabalham incansavelmente em prol dos direitos das mulheres com o objetivo de fortalecê-las institucionalmente para que sejam sustentáveis no tempo. Outro é fazer precisamente incidência política com fundações, institutos de cooperação internacional, organismos multilaterais para que invistam nos direitos das mulheres no Brasil. Para o Fundo ELAS, sua própria sustentabilidade no tempo é muito importante. Doar contribui para essa continuidade. Assim como o VIRALIZE, estamos totalmente de acordo e engajadas na mudança da cultura de doações no país. É um trabalho que vale a pena.

Mais sobre Amália: Mexicana-nicaraguense, radicada no Brasil desde 1995, Amalia E. Fischer P. é pesquisadora e ativista pelos Direitos das Mulheres desde 1975. Socióloga, doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ, foi professora na Universidade Nacional Autônoma do México, onde cofundou o Centro de Estudos da Mulher. Fellow Ashoka e Synergos. Idealizadora, cofundadora e coordenadora geral do Fundo ELAS. Cofundadora da Prospera – International Network of Women’s Funds, do Fundo de Ação Urgente, da Rede de Esporte pela Mudança Social e da Rede de Filantropia para Justiça Social.

 

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